APARTHEID “FITNESS”: o exercício ainda vive os anos 80?

APARTHEID “FITNESS”: o exercício ainda vive os anos 80?

Porque termos como “exercícios para perder barriga rapidamente” ou “exercícios para hipertrofia pernas e glúteos” reduz drasticamente a importância do exercício físico

Atenção! Vivemos sim uma segregação fitness!

Você com certeza já ouviu algumas ou todas as afirmações abaixo:

“ATÉ TENTO TREINAR, MAS NÃO GOSTO DAQUELES APARELHOS”

“O AMBIENTE NÃO É PRA MIM”

“O QUE UMA PESSOA DE 60 ANOS VAI FAZER NO MEIO DE JOVENS SEDENTOS POR MÚSCULOS?”

“FUI, NÃO GOSTEI, E NÃO VOLTO MAIS”

“SE FOR PRA ME COLOCAR 40 MINUTOS NA ESTEIRA PREFIRO ANDAR NA RUA”

Foram apenas 5 afirmações que percebo no dia-a-dia. Qualquer semelhança…

A pergunta que fica é:

“O EXERCÍCIO É MESMO PARA TODOS, OU EXISTE CERTA SEGREGAÇÃO?”

Sim, é para soar provocativo mesmo.

E se você que esta lendo é estudante ou profissional da área, se sinta mais provocado ainda.

ANOS 80: TV MANCHETE, XUXA, SARRIÁ, DIRETAS JÁ E…ACADEMIAS?

O início dos anos 80 foi marcante para muitas pessoas. A extinta TV Manchete bombava mais que a Globo, a Xuxa começava seu “reinado”, o movimento de Diretas ganhava força descomunal e a maior seleção de futebol já vista nesse país perdeu a Copa mais previsível da história no estádio Sarriá.  Momentos de fato marcantes.

Nesse meio, nosso mercado de academias começava a se expandir por aqui. Uma ou outra pessoa buscava nas salas de musculação as “endorfinas” prometidas por propagandas estrangeiras, que não cansavam de enaltecer os feitos de um moço austríaco, por ocasião morando nos EUA, obstinado e de nome estranho…Arnold Schwarzenegger, vencedor de nada menos que 7 edições do Mr. Olímpia, famoso concurso de fisiculturismo.

Invictus
Ícone até hoje nas academias

Veja. Estamos falando da primeira metade da década de 80.

Que fique claro desde já. Entre primeira metade da década 80, até a metade dos anos 90, não havia uma profissão específica que tivesse como prerrogativa a análise, a aplicação e as soluções para cada pessoa através do exercício físico no Brasil. Isso só veio acontecer com a promulgação da Lei Federal 9.696 de 1 de setembro de 1998, como citado aqui.

Você acha que a mídia tem força?

No início dos anos 90, um personagem chamado “Paulo Cintura” começa a dar as caras em um programa de audiência fenomenal na Rede Globo.

Invictus
Personagem do início dos anos 90, “Paulo Cintura” e seu famoso bordão.

A Escolinha do professor Raimundo, do genial Chico Anysio, também marcou gerações, e teve grande contribuição para o “estereótipos dos frequentadores de academias” que nos acostumamos a ver: “Corpo malhado, regatinha da irmã e um ar de diversão o tempo inteiro”. O bordão “Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa“#IIIISSAAAA , é verdadeiro, mas o produto foi mal vendido. Ou não. Aliás, foi bem vendido, mas para um público-alvo específico, quando deveria ser vendido para todos.

Antes mesmo da promulgação da Lei que regulamentou nossa profissão, a mesma Rede Globo, nada boba, lança o seriado de nome sugestivo e com histórias de jovens descolados e meninas com calças “coladas”, onde a paquera era o maior atrativo. O seriado segue vivo até hoje, com enfoque totalmente diferente. O motivo da permanência do nome depois de mais de 20 anos é obvio: o sucesso foi tremendo.

O culto ao corpo passou a ser obsessivo. O mercado de suplementos alimentares, focados em atletas, viu nessa onda “fitness” o nicho mais lucrativo de seu segmento…os frequentadores de academias.

Lembre-se sempre do estereótipo.

Por que estou viajando lá atrás? Para que tudo faça sentido a partir de agora.

Nos acostumamos a enxergar o exercício físico como algo propício só para alguns. Nos venderam a ideia de que academias (aqui tomo o devido cuidado para NÃO generalizar, por que sei que nem todas são assim) são  ambientes de paquera, onde o maior objetivo é suar a qualquer custo, para demonstrar virilidade ou sensualidade. Poder e graça. E que por isso não cabe na concepção de uma pessoa “normal” frequentar tal ambiente por que não “se julga dessa ou daquela tribo”.

Faz sentido pra você?

 

É PARA TODOS OU NÃO?

É claro que sim!

Ninguém deveria hesitar em entrar em uma academia, seja quem for.

Os avanços do nosso conhecimento sobre os efeitos do exercício possibilitou uma gama absurdamente enorme de atuação, e também de responsabilidade quanto nossa área de atuação. Esses avanços vão de encontro às novas exigências do nosso mundo contemporâneo. E nesse sentido, o nosso foco passa a ser todos, sem exceção, como deveria ter sido desde lá atrás. Veja alguns:

Aqui

Aqui

Aqui

No entanto, mesmo com tantos estudos e bases sólidas sobre as maravilhas do exercício para toda a população em suas diversas necessidades, muitos profissionais da área (ou mesmo aventureiros “criminosos” disfarçados de bacharéis) encontram naquela década inspirações para suas maluquices perigosas e irresponsáveis. Ainda bem que naquele tempo não havia Facebook ou Instagram…

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Esse aí é figura carimbada nas “revoltas bem humoradas” do Prof. Paulo Gentil

Se você é profissional de educação física ou estudante da área, atenção.

Ou você sai dos anos 80, onde claramente muitos profissionais ainda estão, ou você fará sua profissão obsoleta em poucos anos.

Muitos reclamam da desvalorização da profissão. Acho o assunto bem relativo. Pessoas se desvalorizam. A profissão é digna e de importância crescente para os próximos 50 anos no mínimo.

Agora, se você que esta lendo e é da área, cuidado. Se seu propósito com o exercício é gerar dor muscular no dia seguinte, não perca seu tempo montando planilhas. Basta prescrever o famigerado 3 de 10 levantamentos de baldes de água, dos bem cheios. Ou, se o seu objetivo é deixar seu aluno suando em bicas, esperando que ele morra, não perca seu tempo montando e pensando soluções efetivas, inaugure uma sauna.

Faça jus. Você é profissional do exercício. Contexto, necessidade, periodização.

 

NÃO AO APARTHEID! SIM À REVOLUÇÃO!

 

É nosso papel dar caminhos coerentes para nossa profissão. Tenho muita gratidão e admiração por profissionais que levantam essa bandeira, em um momento cada vez mais complicado de nossa sociedade. Cito brevemente o professor Paulo Gentil, por sua sempre “bem humorada e justa revolta” e o professor Tiago Proença, que tanto se esforça em seus projetos à frente da BPro de Porto Alegre. Ambos tem, assim como eu, o desejo mais latente e nobre que um profissional de educação física deve ter: dignidade na defesa da profissão regulamentada em 1998.

Nossa importância se alastra para todos. Atendemos não a esteriótipos. Atendemos pessoas em suas necessidades e anseios. Digo aos meus clientes e alunos o seguinte:

SOMOS COMO MÉDICOS, MAS NÃO “ABRIMOS NINGUÉM”

E devemos evitar que abram.

Nossos conhecimentos devem ser adequados para atender a você que precisa do exercício para controlar a hipertensão, o diabetes, os efeitos deletérios do câncer e seus tratamentos, artrite, artrose, condromalácia patelar, bursites de quadril e ombros, colesterol alto, fibromialgia, hérnias de disco, etc. E devem sim ser atualizados com obsessão única.

Aliás, quem entende de movimento (biomecânica e cinesiologia) e suas respostas fisiológicas, em seus volumes e intensidades somos nós. Fica a dica.

Por isso tenho como missão particular zelar pela sociedade como um TODO, não somente a uma parcela. Exercício é para todos, academia deve ser ambiente de todos.

Vamos atender a todos em suas necessidades e anseios. Hipertrofia e emagrecimento são as pontas do iceberg. A sociedade precisa de nós urgentemente, ou não?

Cabe a esses gritos quebrar o paradigma da “regatinha da irmã” e colocar o exercício na primeira das prateleiras de prioridade das pessoas.

Isso vai engrandecer a todos. A nós e à população.