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Interleucinas – Músculo como Órgão Endócrino e Imune

INTERLEUCINA- MENSAGEIRO MEDIADO PELO EXERCÍCIO. Te parece um tema complicado? Nem tanto. Acompanhe agora como o exercício é de fato fabuloso.

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Se eu te perguntar assim: A prática de exercícios é saudável?

Sua resposta com certeza seria sim.

Mas, e se eu perguntar: É saudável porque? O que acontece com o corpo para que essa resposta seja afirmativa (e correta aliás).

Por que o exercício pode resultar em menor incidência de dores musculares e articulares? Por que ele é recomendado em casos de Alzheimer e Parkinson? Como ele pode atenuar alguns quadros deletérios de câncer?

Vamos entender!

Se eu te perguntasse agora! Cite 3 órgãos do corpo e seus funções! Eita, prova oral, na lata!

Fígado! Porque secreta as somatomedinas, auxiliando no crescimento de tecidos. Tá certo! 😁

Pâncreas! Porque secreta a insulina! Isso ajuda a modular o metabolismo da glicose, e portanto a estabilizar estado de diabetes. Perfeito! 🤗

Tireóide! Porque secreta hormônios que orquestram o metabolismo como um todo! Tirou 10 😂

E se eu te disser que existe um órgão que secreta um sinalizador que faz tudo isso ao mesmo tempo?

Esse órgão é o músculo!

Sim, o músculo esquelético, esse que você usa para se locomover. Mas tem uma condição. Para que esse sinalizadores entrem na corrente sanguínea e cheguem a seus destinos específicos, eles precisam ser contraídos de modo e frequência correta. Olha o exercício aí!

Primeiro, tenho que explicar que durante muito tempo o músculo esquelético foi considerado “apenas” uma estrutura do sistema locomotor. E também durante muito tempo nos preocupamos em saber mais sobre os músculos estudando os ossos (!!!), ao buscarmos suas origens e inserções, limitando suas ações a eventos mecânicos e cinesiológicos.

Entretanto, com o avanço nos estudos da fisiologia do exercício, foi possível perceber que o músculo esquelético é capaz de mediar inúmeras respostas positivas ao corpo perante as contrações musculares.

O músculo é considerado glândula endócrina porque secreta sinalizadores denominados citocinas que atuarão em si mesmo e em outros tecidos do corpo. No entanto, assim como as citocinas secretadas pelo tecido adiposo são denominadas adipocinas, tão logo as citocinas secretadas pelos músculos são as miocinas.

 

MIOCINAS – OS MENSAGEIROS DA CONTRAÇÃO MUSCULAR

O ciclo que chamamos de contração muscular (ciclo alongamento-encurtamento) acontece como na figura abaixo. A medida que as fibras deslizam entre si, as sinalizações químicas e metabólicas no meio intracelular passam a acontecer em velocidade e intensidade muito aumentadas. Assim, as miocinas passam a exercer seus papéis, de acordo com a intensidade do exercício. Por essas e outras somos apaixonados😍 pelo treinamento de força.

Nota: Quanto maior o grupamento muscular envolvido em determinado exercício, maior a resposta fisiológica. Penso muito na utilização do bíceps por exemplo nos exercícios de padrão motor puxar como a barra fixa ou o chin-up. A eficiência fisiológica justifica escolher um deles em detrimento a um exercício isolado como a rosca direta por exemplo.

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E afinal, quais são essas miocinas? E onde e como atuam.

Se surpreenda, e fique aliviado. Você possui nada menos que uma usina geradora de saúde.

 

INTERLEUCINAS: SINALIZADORES FISIOLÓGICOS DE PRIMEIRA LINHA

Dentro das miocinas estão as INTERLEUCINAS. Essas especificamente serão abordadas com muito afinco nas próximas linhas desse post, já que a contração muscular é um dos primeiros passos para sua secreção.

Na verdade, a produção das interleucinas é mediada por dois tipos de células do sistema imune, os macrófagos e os linfócitos, em resposta à lesões ou infecções. Em decorrência da intensidade e volume das contrações musculares (em especial as excêntricas), essas células entram em ação como primeira linha de defesa do corpo, resultando na secreção de interleucinas.

Outros fatores são determinantes para a secreção de citocinas, como o estresse oxidativo (produção de espécies reativas de oxigênio, conhecidas como Radicais Livres), e estresse hormonal (alterações agudas e/ou crônicas do sistema endócrino perante o treinamento). Ambas são altamente dependentes do exercício físico.

Veja abaixo como o músculo modula as respostas endócrinas e imunes para cada tipo de interleucina.

INTERLEUCINA-1 [IL-1] – RESPOSTAS AO EXERCÍCIO

A interleucina-1 possui dois sub-tipos: a interleucina-1 alfa (IL-1α)  e interleucina-1 beta (IL-1β), porém, ambas são praticamente indistinguíveis perante suas ações.

Como resposta ao exercício, seja ele de endurance (corridas ou bike por longo período de tempo) ou de força 😍, a secreção de interleucina-1 (IL-1) se torna aumentada.

Suas principais ações são:

  • Aumento da temperatura corpórea*;
  • Aumento da resposta dos hormônios corticosteroides, principalmente o cortisol
  • Aumento da vasodilatação
  • Aumento da hipotensão

*Em estados de treinamento exacerbados, com grandes intensidades e volumes sem medida, é comum observar como resposta períodos de febre e de maior suscetibilidade à infecções de garganta e a resfriados, muito em função do aumento da resposta dessa interleucina, que por sua vez gera uma resposta em cascata de outras interleucinas.

Nada em excesso é bom. Nem o exercício.

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INTERLEUCINA-6 [IL-6] – RESPOSTAS AO EXERCÍCIO

A atuação da interleucina-6 (IL-6) decorrente do exercício é imensamente superior a qualquer outra interleucina já observada em estudos. Tal fato a deixa conhecida no meio acadêmico e científico como “fator do exercício“.

A interleucina-6 é notoriamente secretada por macrófagos e linfócitos perante ás lesões musculares causadas pelo exercício. A linha de defesa do corpo esta permanentemente vigilante para que caso ocorra algum evento agressor ao nosso sistema, a resposta anti-inflamatória seja rápida e eficaz.

No entanto, a secreção de interleucina-6 é observada como produto do próprio músculo, sendo muito comentada e enaltecida na fisiologia do exercício como o big-boss do sistema imune dentro do treinamento. (termo usado pelo mestre Waldecir de Paula Lima, meu professor da faculdade, que desde sempre fez questão de apresentar o exercício como saúde. Minha gratidão).

Volto a dizer: quanto maior o grupamento muscular envolvido, tão maior será a resposta fisiológica, e dentro do contexto que estamos falando, maior a secreção de interleucina-6.

E é por isso que sou apaixonado pelos efeitos gerados por boas periodizações de agachamentos, dedlift’s e exercícios de potência muscular. #ficaadica

Suas ações envolvem efeitos imunes, metabólicos e endócrinos:

  • Resposta anti-inflamatória sistêmica ( atingem o corpo todo)
  • Modulam captação de glicose (ótima notícia aos diabéticos 🐝)
  • Modulam a oxidação de ácidos graxos (ótima notícia para a galera do colesterol alto )
  • Promovem gliconeogênese (formação de glicose hepática decorrentes de outros substratos)
  • Promovem lipólise (“Quebra” do tecido adiposo para sua utilização no exercício) Cê é loco 😱

 

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INTERLEUCINA-8 [IL-8] – RESPOSTA AO EXERCÍCIO

Na mesma linha de atuação se encontra a interleucina-8. Ainda que não tão abundante e responsiva quanto a interleucina-6, ela atua como um agente fundamental no efeito hipotensor do exercício por promover o que chamamos de angiogênese, ou seja, a formação de novos vasos sanguíneos. Isso é absolutamente espetacular, visto que esta condição atenua os efeitos da hipertensão arterial, sendo portanto um fator fundamental na prevenção e no tratamento dessa silenciosa e assustadora condição.

Aliás, estamos perdendo e feio para a hipertensão. Além dos efeitos deletérios à saúde e suas complicações como AVC’s e infartos, o impacto econômico é gigantesco para seu tratamento. O exercício pode atenuar essas condições, basta duas coisas: conhecimento técnico do profissional de educação física na prescrição adequada e vontade por parte do enfermo. Simples assim.

 

INTERLEUCINA -15 [IL-15] – RESPOSTA AO EXERCÍCIO

A interleucina-15 modula ativamente a síntese proteica no próprio músculo. Isso quer dizer que essa citocina participa para os processos anabólicos pós-exercício. O crescimento muscular, muito além do fins estéticos, faz com que todas as respostas que vimos anteriormente sejam ainda mais acentuadas.

Isso não quer dizer que tenhamos que formar brutamontes nas academias (até porque o crescimento muscular que observo por aí é fundamentalmente farmacêutico, e eu não sou farmacêutico), mas que ao promover uma massa muscular responsiva e permanente, todos, inclusive idosos se beneficiam de seus anti-inflamatórios naturais. O exercício é para todos ou não?

 

INTERLEUCINA: FUNDAMENTAL EM ESTADOS DE CÂNCER

Sim, essa é outra doença cada vez mais voraz e comum, infelizmente. Nos últimos anos muitas estratégias clínicas vem sendo estudadas e aplicadas para atenuar os efeitos do câncer e devolver ao paciente um estado de qualidade de vida suficientemente aceitável.

Um estado muito comum em pacientes nesse estado é a caquexia, que se caracteriza por uma perda acentuada e progressiva do tecido muscular, levando a uma perda de peso repentina e desmedida.

Como visto acima, as interleucinas tem papéis endócrinos e imunes, sendo mediadas pela intensidade e volume do exercício.

Isso envolve diretamente estratégias para com o sistema imunológico. Esse artigo de pesquisadores americanos da Carolina do Sul aponta os promissores resultados de tratamentos de pessoas com câncer através da interleucina-6.

Esse pessoal do American Journal Physiology também aborda a interleucina-6 em eventos simultâneos com outros agentes sinalizadores, como a mTOR, o IGF-I e o AMP-K, reduzindo drasticamente a perda de massa muscular, evidente na caquexia.

MINHA EXPERIÊNCIA COM ESSE PÚBLICO

Tenho visto um aumento gradual desse público nas academias. Ainda que o quadro clínico não seja o desejado, a maneira com que se olha para o exercício me deixa animado.

Entre os anos de 2015 e 2017 pude atender nada menos que 7 pessoas em condições assim, com idades entre 25 e 45 anos. As que descobriram o tumor já tendo em sua rotina o treinamento físico tiveram efeitos menos agressivos (subjeção de cada paciente e minha percepção como treinador) decorrentes dos processos de quimioterapia e radioterapia. Os mais comuns são relatos de náuseas, dores absurdas pelo corpo e profundas dores de cabeça.

E sim. O exercício participa como agente fundamental para atenuar os efeitos do câncer, sobretudo na caquexia e nesses efeitos indesejados de quimio e radioterapia.

Não se trata do famigerado 3 de 10. Se trata de modular adequadamente volume versus intensidade, e saber quais respostas são esperadas. Não alugo máquinas, ofereço treinamento.

Tenho certeza que o papel fundamental das interleucinas se mostra como uma das vertentes mais promissoras para quem trabalha com treinamento físico. E isso pode ser observado na rotina dos pacientes em questão.

Posso garantir que são de fato exemplos de vida e verdadeiros guerreiros, sobretudo na esperança de cada um.

PS. Graças a Deus todos continuam entre nós.

INTERLEUCINA – O HEROI POUCO ABORDADO NO TREINAMENTO FÍSICO

Espero ter tido sucesso nessa tarefa extremamente complicada de abordar tanta bioquímica, tantos nomes complicados,enfim…

Na minha visão é mais que necessário que informações como essas cheguem ao público para colocar o exercício e o treinamento de fato em seu devido lugar: base fundamental da vida.

Aos profissionais que estão lendo esse artigo, meu pedido especial: se dediquem para promover saúde. É um problema público, profundo e volto a dizer, estamos perdendo a oportunidade de engrandecer nossa profissão.